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  • Alexandre Rambo

O amor comeu meu medo da morte

“O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.”



João Cabral de Melo Neto escreveu Os Três Mal-Amados a partir das figuras de João, Raymundo e Joaquim, do poema Quadrilha de Drummond: “João amava Thereza que amava Raymundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém”…


A fala acima, desse amor que tudo devora, é atribuída a Joaquim. Embora o amor tenha também sua face devastadora, paixões que nos consomem o pavio, peço licença a João Cabral para arrancar outro sentido de suas palavras.

Quero falar dessa outra possibilidade do amor, que come nosso medo da morte.

Diante da finitude, da pergunta sempre sem resposta pelo sentido da vida, talvez o amor compareça como algo que pode nos sustentar frente a esse buraco. Não como tamponamento, mas como possibilidade de criar vida, sentido, realização, a partir do laço com o outro.

Vou além. Neste momento em que o país enfrenta uma ruptura tão grande do laço social, onde o ódio se aferrenha nos dentes, faz-se ainda mais necessário nosso olhar generoso para o que pode nos fazer constituir laços novamente – laços outros, diferentes dos anteriores, mais justos.

Diante da presença tão enlouquecedora e obscena da morte em nosso cotidiano, num Brasil entregue a um desgoverno genocida, precisamos mais do que nunca criar algo que nos seja amparo e ponte nesse abismo. As palavras de Jessica Stori ecoam forte:


“Eu vivo no Brasil e isso é muito para se ter em um corpo”

Como resistir? Sobreviver? Não adoecer?


Para fazer frente à Thanatos (pulsão de morte), recorremos a Eros (pulsão de vida). Falar de amor, nesse contexto, soa-nos como uma aposta possível na direção da vida, uma resistência na contramão da morte. Defender a utopia como forma de não ceder ao ódio. Apostar no laço ao invés do apagamento do outro. O afeto é político.

Importante salientar que não estamos falando aqui daquele arremedo de amor e paz que, por vezes, comparece nos discursos como tentativa de apagamento dos conflitos e silenciamento das violências. Nossa aposta ao falar de amor consiste na possibilidade de movimentar a energia de ligação que tece os laços e a vida e faz frente à morte e à destruição de um país. Nossa aposta, que inclui o outro, é no sentido da democracia.

Até mesmo porque, como tão delicadamente nos lembra Valter Hugo Mãe, só existimos a partir do outro. Cada um de nós carrega a história de outras pessoas.

Mesmo lá onde julgamos encontrar o cerne da nossa identidade o “eu” vira buraco: encontramos um Outro, estranho_familiar, mosaico_caleidoscópico: um pedaço do sonho que nos constituiu; um resto de canção; as palavras de quem nos desejou; os traços de quem amamos.


O humano se define pelo encontro, real ou imaginado. O toque do outro marca a nossa pele. A palavra do outro nos dá lugar. Drummond, certeiro, desvela nosso empuxo universal: que pode o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? Amar e esquecer, amar e malamar? Amar, desamar, amar?

Ainda que nos toque a todos de maneiras muito distintas, a experiência do existir é irremediavelmente compartilhada. A história é compartilhada. O que se passa com o outro, portanto, não me pode ser indiferente. Há implicação nessa malha coletiva que tecemos juntes.

No período eleitoral de 2018, que já anunciava o horror que viria, muitas pessoas se dispuseram a ir às ruas conversar sobre o que estava em jogo e as possibilidades de voto. Num desses dias no Parque da Redenção, entre alguns passantes indisponíveis e outros dialogando, caminhava uma mãe com sua filha, uma menina adolescente com síndrome de down, distribuindo pequenos coraçõezinhos de papel. Quando passava, deixava seu gesto falar por si, não dizia muito, mas dizia o fundamental: “é preciso amor nesses tempos bicudos”.


••

A beleza de a Quadrilha, poema de Drummond, também está em nos apontar o quanto o amor é metonímico, e dança em desencontros e deslizes de um sujeito ao outro. É da natureza do desejo, diria Lacan.

A pergunta então que fazemos na contramão é: pode o amor sossegar em um laço?

É preciso, para tentar responder a essa pergunta, investigar de que laço estamos falando. Qual sua natureza.

Fomos subjetivados, na história do amor no Ocidente, com um modelo de amor romântico e monogâmico que, fim da história: visa a constituir família. Escolhemos A pessoa que nos completará. “The one”. E temos filhos. “The end” ~ cobre rápido com um grande “foram felizes para sempre”.

O problema desse “foram felizes para sempre” é que ele geralmente não dá conta do que o desejo levanta e bagunça num laço. E se uma das pessoas envolvidas se interessar por uma terceira? E se as duas se interessarem por uma terceira? E se forem três? E se for a quadrilha inteira do Drummond? E se quiserem falar disso abertamente e reinventar o laço a partir disso que os movimenta? Não é mais amor?

O outro problema desse modelo de amor que aprendemos e nos subjetivou é que ele é excludente. Crescemos vendo filmes, novelas e campanhas publicitárias nos ensinando que casal é um homem e uma mulher cis heterossexuais e brancos. As famílias de margarina, núcleo central do capitalismo, são emblemáticas de um modelo patriarcal branco. Sistema que visa a garantir a concentração de renda, o acúmulo de capital, a linhagem e a herança. Modelo normatizador que violenta os corpos que não reconhece. Afinal, quais são os sujeitos que cabem nesse padrão? E, pelo avesso, como legitimar e inclusive imaginar outros amores possíveis, uma vez que não estão representados?

O quanto pessoas trans, gays, lésbicas, intersexuais e de outras identidades não binárias conseguem formar laços afetivos e inclusive constituir família se a sociedade os marginaliza e lhes retira simbolicamente (e muitas vezes também concreta e juridicamente) a possibilidade de se enxergar como tal? A invisibilização que remete esses corpos aos “guetos” e à patologização, vinculado a uma existência lida apenas como “promiscua”, tem efeitos imensos na capacidade dessas pessoas constituírem laços. Embora em junho – mês do orgulho LBGTQIA+ que relembra e celebra o levante de Stonewall – todas as campanhas publicitárias se interessem pelo “pink money”, as ações no dia-a-dia dessas empresas e da sociedade como um todo estão longe de uma real mudança de paradigma em defesa dos direitos dessa população, especialmente em relação às pessoas trans, que seguem marginalizadas e excluídas das possibilidade de acesso à educação, cultura e emprego. Não esqueçamos, conforme dados do Grupo Gay da Bahia, o Brasil segue no topo de um ranking inglório como o país que mais mata LGBTQIA+ no mundo.

Na direção oposta à exclusão da população LGBTQIA+ da possibilidade de constituir família, a convocação até então predominante para as mulheres (supostas cisgênero e heterossexuais) sempre foi para submeter-se a laços familiares. O quanto estas mulheres conseguem, caso queiram, sustentar um destino diferente? O quanto mulheres têm espaço para questionar seu desejo ou não de ser mãe? O quanto mulheres têm espaço para viver o seu desejo? O quão longe ainda estamos da superação da violência de gênero e do feminicídio?

Em outra perspectiva, Jesse Souza, em “A Elite do Atraso: da Escravidão à Lava Jato”, alerta-nos pra os efeitos que ainda hoje se observa na fragilidade de composição de certos laços familiares, em razão do brutal apagamento de identidade e impossibilidade de criar laços e planejar a própria vida (como sujeito e nao como objeto posse de outrem) imposta aos escravizados. Não esqueçamos que esses sujeitos, forçados a viver em condição desumana, foram, após o fim da escravidão, largados à própria sorte, em um mercado de trabalho e condição de concorrência desleais com imigrantes que tinham sua capacidade preservada, enquanto eles foram tolhidos de tudo. Desprovidos de condições mínimas de vida, como compor um laço? A escravidão ainda hoje não teve a sua devida reparação.

Nesse contexto, entendemos como fundamental os movimentos feminista, antirracista, LGBTQIA+, e tantos outros movimentos sociais que vieram e vêm, com muita luta, reivindicando direitos, desconstruindo “verdades” naturalizadas e construindo outras possibilidades, inclusive de leitura e de sentido às nossas existências, furando o até então modelo único de ser no mundo, de amar e de compor família.

Tatiana Nascimento nos salva com seu “Apocalipse Cuíer”:


“cuíer A.P. (ou oriki de Shiva):

nós vamos destruir tudo que você ama e tudo que c chama “amor” nós vamos destruir

porque c chama “amor à pátria” o que é racismo c chama “amor a deus” o que é fundamentalismo c chama “amor pela família” o que é sexismo homofóbico y c chama transfobia de “amor à natureza” c chama de “amor pela segurança” o que é militarismo y o capitalismo c chama de “amor pelo trabalho” o que c chama de “amor à humanidade” é especismo, y esse seu “amor pela Palavra” na real é só um caso histórico de má-tradução – que

conveninente, chamar deus de “ele”, mas se liga: nós somos seu apocalipse cuíer. y o que c chama de “amor pela liberdade”, “pela justiça”, toda

essa sua ideia de “civilização” é assassinato, é genocídio, quer matar tudo que ri, que goza, que dança,

quer matar a gente.

mas a gente vinga

que nem semente daninha: a gente sobre vive!

tá vendo? já começou! sente a pulsação vibrando o chão: é o beat do nosso coração!

porque a gente, que você amaldiçoa em nome do seu amor doentio normativo, segregador, a gente que é amante, a gente é que vive y espalha

amor.”


A possibilidade jurídica do divórcio, os métodos contraceptivos (que ainda têm muito a avançar, principalmente para os homens), o ingresso da mulher no mercado de trabalho e sua independência financeira, seu direito de voto, o combate à violência de gênero, o combate ao racismo, a retirada da homossexualidade e da transexualidade dos manuais diagnósticos, o direito de casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, o direito de família dessas duas pessoas, a inclusão em plano de saúde do cônjuge reconhecido como tal, o direito das pessoas trans ao seu nome social, tudo isso não são conquistas separadas da possibilidade de compor, permanecer ou poder romper um laço afetivo.

Quando falamos de laço, não podemos ignorar esses elementos, pois compõem quem nós somos. Como sociedade e como sujeitos. Faz parte dos que nos limita e nos abre possibilidades. Molda nosso desejo, nossa possibilidade de ser e amar nesse mundo.

Embora ainda estejamos longe de uma sociedade mais diversa e justa (especialmente no momento atual, de grande tensionamento, com retorno de ideias que pensávamos já ter superado), todas as conquistas dos movimentos sociais abriram e pavimentaram possibilidades para outros arranjos afetivos.


Alguns grupos, por exemplo, já questionam fortemente a monogamia, inclusive por toda sua relação com o modelo patriarcal capitalista. Defendem que deve haver responsabilidade afetiva (tomar o outro como um sujeito e cuidá-lo como tal, não apenas como objeto de satisfação do próprio desejo), mas que isso independe de ser um laço exclusivo. Interrogam o conceito de propriedade no seu limite: nesse caso, propriedade sobre o outro. Colocam em questão o sentido da expressão “pertencer”. Propõem-se a pensar o modelo cristão de renúncia.

O interessante dessas aberturas é que não se trata necessariamente de substituir um modelo por outro – por exemplo impor a não monogamia para todes -, mas abrir possibilidades de diferentes arranjos para que cada um de nós possa se inventar dentro daquilo que o desejo nos convoca e compor laços afetivos a partir dessas possibilidades.

Afinal, o amor é bonito demais pra ser uma instituição excludente.


•••


Outro aspecto interessante a se pensar sobre o amor é sua natureza fundamental de desencontro. Embora o amor tenha também sua mirada narcísica, onde se busca um outro-espelho, e não um outro alteridade, Lacan é certeiro ao anunciar que a possibilidade fecunda do amor está no encontro com a falta. Bethânia, dando voz às palavras de Caê, rega-nos os ouvidos há tempos: “Eu queria querer-te e amar o amor // construirmos dulcíssima prisão // E encontrar a mais justa adequação // tudo métrica e rima e nunca dor // Mas a vida é real e de viés // e vê só que cilada o amor me armou // E te quero e não queres como sou // não te quero e não queres como és.” Não adianta, a bruta flor do querer floresce mesmo é no terreno de ~certo~ desencontro.


Para que um laço se estabeleça, é preciso que algo da falta compareça.

Para falar da fundamental dimensão da falta na constituição de um laço, Lacan resgata o ritual indígena do Potlatch, o amor como dom. Nesses rituais, realizados em situações de casamento por exemplo, o homenageado não ganha presentes, mas se desfaz de seus bens, distribuindo-os entre os convidados. É a partir do ato de dar, e portanto da falta do objeto, que se abre a possibilidade de circulação e de instauração dos laços.

É essa mesma possibilidade simbólica que Lacan vai indicar ao dizer que o amor é signo de que mudamos de discurso, ou a mudança da posição de amado (objeto do amor) para amante (aquele que ama). Está bem que o endereçamento do amor possa inicialmente se sustentar na suposição de que o outro tem aquilo que nos falta – e, portanto, nos completará. A aposta de que o outro tem o objeto do nosso desejo. Taí o Alcibíades que entrou bebaço na festinha gritando Sócrates tchyamo bota na tua cabeça que isso aqui vai render. Embriagado de amor, quem nunk?! Contudo, a possibilidade efetiva de laço só se inaugura quando esse objeto suposto no outro vacila. É no terreno aberto por essa falta que a possibilidade de laço se desenha.

E nós, tolinhos, achando que é aquilo que possuímos, nossos melhores atributos (e vá filtro de instagram), que pode capturar o desejo do outro, quando é justamente aquilo que nos falta que abre a possibilidade de desejo e de amor. Nossa oferta de amor não é oferta de algo que efetivamente possuímos, mas justamente é oferta de algo que nos falta. É a partir do buraco de nosso desejo que amamos. Nas palavras de Lacan:

“o amor é dar o que não se tem”.

Outra forma de falar da dimensão da falta é pensar que, quando estabelecemos um laço, abrimos mão de certas coisas. Algo inevitavelmente configura-se como falta, pois ao escolher uma possibilidade, renunciamos a todas as outras.

O discurso capitalista, esperto que é de nossos dentros, convida-nos sempre a pensar que é possível abolir essa falta caso escolhamos o objeto certo. Se não estamos plenamente satisfeitos, busquemos o próximo objeto. Há aqueles inclusive que passam uma vida capturados nessa miragem, de objeto em objeto num eterno ciclo de descarte, nova aposta, nova frustração. Como brinca Stromae em sua versão da música Carmen “Et c’est comme ça qu’on s’aime s’aime s’aime s’aime // Comme ça consomme somme somme somme somme” Em livre tradução: “E é assim que a gente se ama, ama, ama, ama // Como consome, some, some, some, some”.


O golpe ta aí, cai quem quer

– e quantos de nós já não caímos nesse golpe e nos pegamos por vezes atrapados nessa contagem de likes. Achatamos a dimensão do desejo ao círculo infernal da demanda. Embora toda demanda seja demanda de amor, é na ultrapassagem desse curto circuito imaginário e narcísico que a possibilidade simbólica de amor se coloca. E, nunca é demais dizer, é precisamente a falta que esburaca esse circuito que lança o sujeito a essa ultrapassagem. A palavra, o mal-entendido e o desencontro não são, portanto, o fracasso do amor, mas o intervalo no qual ele se desenvolve.

Poderia inclusive parecer à primeira vista que o amor livre e as possibilidades não monogâmicas, ao não encerrar uma escolha única (que implicaria em certa renúncia e, em consequência, na dimensão da falta), alinhem-se nessa busca do discurso capitalista. Entendo que não se trata disso. Não acredito que nesses arranjos (que em tese poderiam ter tudo) não se abra mão de nada e se consiga eliminar a falta. Esse seria o engodo do discurso capitalista.

Ao escolher viver outros arranjos de laço, em relações abertas, ou mesmo múltiplas relações afetivas, a falta, mesmo que de outra forma, inevitavelmente acaba se colocando. Pode aparecer, por exemplo, como a falta de morar junto, dividir o dia-a-dia de uma forma mais contínua.

O que está em jogo, portanto, nesses novos arranjos, não é a possibilidade de eliminar a falta. É a possibilidade de compor outros arranjos a partir dela. Contorná-la de outra forma. Deslocá-la. Viver diferentes experiências.

Nesse arremate, visando à ética de interrogar o desejo que nos habita ~em todas suas possibilidades, busco o querido Calligaris, que nos deixou recentemente, em sua eterna frase “Não quero ser feliz. Quero é ter uma vida interessante.” Quero é botar meu bloco na rua. E vacina pra todes! Pra ontem! Pra antes de ontem! Saudades carnaval.



Referências:

Caetano Veloso, O Quereres, 1984.

Carlos Drummond de Andrade, Quadrilha, em Alguma Poesia, 1930, e Amar, em Claro Enigma, 1951.

Contardo Calligaris, Fronteiras do Pensamento, 2015.

Jacques Lacan:

O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud, 1953-1954.

O Seminário, livro 8: A Transferência, 1960-1961.

O Seminário, livro 17: O Avesso da Psicanálise, 1969-1970.

O Seminário, livro 19: O Saber do Psicanalista, 1971-1972.

O Seminário, livro 20: Mais, Ainda, 1972-1973.

Jessica Stori, Carne e Colapso, 2020.

Jesse Souza, A Elite do Atraso: da Escravidão à Lava Jato , 2017.

João Cabral de Melo Neto, os Três Mal-Amados, 1943.

Letrux, Vai Render, em Letrux em Noite de Climão, 2017.

MC Matheuzinho e Menor Nico, O Golpe tá aí Cai Quem Quer, 2020.

Platão, O Banquete, por volta de 380 a.C.

Sérgio Sampaio, Eu Quero é Botar meu Bloco na Rua, 1973.

Stromae, Carmen, em Racine Carrée, 2013.

Tatiana Nascimento, Apocalipse Cuíer, 2016.

Valter Hugo Mãe, O Filho de Mil Homens, 2013

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