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  • Priscilla Machado de Souza

A criação artística e suas psicodinâmicas

Entrevista com Dany López, por Priscilla Machado de Souza



O músico uruguaio, que irá ministrar o curso Psicodinâmica da Criação aqui na Com Verso, traz uma visão muito singular sobre o processo criativo. A mescla entre diferentes trabalhos musicais – compositor, instrumentista, arranjador e produtor – a crescente dilatação de suas fronteiras além Río de la Plata, sem esquecer das pregressas experiências no campo psi, formam um caldo a la López. Longe de serem inócuas, ditas experimentações fizeram o artista construir uma noção própria que transcende o universo puramente musical. Desse modo, é alguém que compartilha com saberes de outros campos artísticos; os quais faz questão de permanecer próximo. Confira a entrevista!


Com Verso – Em poucas palavras, de que forma você descreveria o seu trabalho? O que definiria o artista Dany López?


Dany López – Meu trabalho fundamentalmente é como compositor e autor de canções. Faz muitos anos que me dedico a isso, mas, definitivamente, tem sido um trabalho retroalimentado por outros trabalhos. Por um lado, pela tarefa docente – em música, em composição e em escritura – por outro, pelo trabalho que exerci como terapeuta durante 15 anos; minha formação em psicologia analítica junguiana. E também tive, por muito tempo, um trabalho como session player1, além de um enorme período como produtor musical. Então, a pergunta pelo trabalho não é tão breve, é bastante ampla… Acho que a resumi bem. Em todos os casos, o trabalho sempre foi acompanhar o processo de criação de uma canção. Seja minha criação ou acompanhando o processo de trabalho de outros – como produtor, como instrumentista, como co-autor, enfim, de diversas formas. Descobri que neste caminho de trabalho com a canção há um paralelismo com o que seria o caminho terapêutico. Ainda mais quando se cria um disco. Há um caminho de trabalho, sobretudo, de narrativa, que não deixa de ter similitudes com o trabalho que se leva a cabo em uma análise.


CV – Nos últimos anos você vem estabelecendo lindas interlocuções com artistas fora do Uruguai, entre eles, muitas e muitos notáveis aqui do Brasil… Qual é a sua motivação em realizar essas trocas?


DL – Há alguns anos tenho compartilhado música e processos criativos com artistas do Brasil. Já fazia isso com artistas no Uruguai e também com artistas da Argentina. No Brasil, em particular, tenho um ótimo vínculo, creio que motivado por uma certa complementaridade que existe tanto nos discursos musicais quanto nos discursos poéticos; nesses dois registros. Há uma complementaridade Brasil-Uruguai. Não só uma complementaridade, mas uma linguagem comum que, entre outras coisas, vem por uma raiz que tem a ver com o folclórico, no caso do sul. E, também, com a África; o Uruguai é um país que tem muita influência africana em sua música. E no poético… Bem, o Uruguai sempre olhou para o Brasil no que tem a ver com os criadores… Para simplificar digo rapidamente: Caetano, Chico, Milton, Jobim e bom, mais recentemente, Lenine, Zeca Baleiro, Moska e um longuíssimo etecetera. Marisa Monte, Adriana Calcanhoto,… É possível aumentar muito a lista. No que me diz respeito tomo ao universo criativo de uma forma muito lúdica. Entrar em outra linguagem musical é conversar com outras formas poéticas, outras idiossincrasias, e com outra língua, efetivamente. Justamente, gera um terreno de brincadeira, de playground, um terreno lúdico no qual a criação tem onde se alimentar.


CV – Quem acompanhar a sua carreira vai perceber uma postura itinerante, não apenas por seus deslocamentos, mas também no seu estilo. Qual a importância de estar em trânsito para o seu processo criativo?


DL – Essa via itinerante tem a ver com o mesmo espírito de brincadeira, com esse mesmo impulso ao conhecimento, ao descobrimento. Ao longo da minha vida me pareceu não só interessante, mas também natural tentar apreender o que não conhecia, me aproximar do novo. Acho que no fim criar é isso. Criar é passar do sabido ao novo. Ou incorporar o conhecido ao território da novidade. Então, esse caminho de progressão entre diferentes linguagens é muito divertido e preenche muito a alma, a gente nunca se aborrece. E, ao mesmo tempo, é algo que permite experimentar a novidade, como via permanente. Também me parece interessante uma transversalidade entre os conhecimentos. E uma transversalidade no que se poderia chamar a formação do criador. Assim, creio que é interessante que o criador, por exemplo, se envolva com instrumentos que desconhece, que trate de “curiosiar” em artes que lhes são alheias ou que lhe interessam, mas não domina. Precisamente, creio que nessa intersecção de campos e territórios aparecem as novidades. Faz muito bem a um músico assistir teatro, cinema, dança, artes visuais e o inverso também ocorre. Como também faz bem a um artista visual mergulhar na poesia, na música ou na dança.


CV – As novas gerações são prodigiosas nos usos das tecnologias da informação, mas, ao mesmo tempo, têm certa aversão ao aprofundamento. Como trabalhar com essas novas gerações de público e de artistas sem propor um eruditismo hermético? E, também, como não cair nas fórmulas excessivamente mastigadas?


DL – Sim, pode ser algo que marque as novas gerações. Seja por uma democratização do acesso à informação e também por uma democratização no acesso ao que é criado, além dos meios com os quais se cria. É possível ter um estúdio caseiro sem muita dificuldade, é possível distribuir também sem dificuldade. E a gente pode tentar aprender coisas nas redes. Tudo isso está à mão, está muito perto. Isso tem inegáveis benefícios e também tem seus riscos e complicações. Tem suas vantagens, mas também coisas que podem terminar sendo armadilhas. Porque certa facilidade no caminho e ausência de frustração terminam gerando um terreno um tanto ilusório que culmina na perda da “massa muscular” criadora. Isso devido à demasiada entrega às facilidades. Penso que mesmo com as tecnologias atuais se podem seguir praticando os mesmos músculos. O músculo de desenvolvimento de ofícios, por exemplo, de uma habilidade em um instrumento. A habilidade técnica, a parte mais ofício de uma arte, me parece fundamental. O ofício permite gerar uma profundidade no veículo estético pelo qual vai navegar a criação. A inspiração vai surgir de uma determinada forma estética… Quem a oferece é o ofício. Ao mesmo tempo, há um ofício na forma de aceder à inspiração; existem formas que se aprendem pelo ofício de criar. Existe um risco com certa facilidade que geram algumas ferramentas de objetos ready-made para quase tudo na arte. Então, muitas questões podem terminar parecendo como uma fórmula, uma forma de arte que só consiste em colagem – sem desprezar à colagem como forma artística! Porém, se o único caminho é juntar peças já feitas… Aí a coisa se limita bastante nesse território. Isso no caso de o looping, o sampling e a colagem (ou mesmo o objeto ready-made dos artistas visuais) for uma presença constante. O interessante é a combinação dessas ferramentas novas – esse objeto conceitual que veio ao mundo nos anos – com as velhas ferramentas de arte e ofício. Como dizia, conhecer suas ferramentas em sua forma artística objetiva e específica não faz mal. E, ainda, conhecer os caminhos da criação passando pela emergência da incubação até o molde da criatura estética e, depois, o seu polimento. Tudo o que exige muito trabalho e muita força de vontade é algo importante a muscular. Um exemplo simples para músicos. Há 30, 40 anos não existia a possibilidade de encontrar as partituras das canções dos músicos populares. Então, a gente tinha que tratar de entender a letra e passar para o papel o que havia entendido e também os acordes e, posteriormente, decifrar tudo por conta. No caminho de descobrir aquilo que não estava dado, a gente construía várias ferramentas. O ouvido se desenvolvia muito e se desenvolviam aptidões harmônicas, por exemplo. Além de que se desenvolvia uma enorme força de vontade que fazia com que para conseguir tirar uma música se precisasse, às vezes, de horas. Isso se pode extrapolar… O youtuber que te explica como fazer um harpejo, ou um passo de dança, como dar determinada pincelada ou como desenvolver determinada estratégia de story telling não existia. Então, a gente tinha que buscar esse recurso com os professores, os velhos mestres ou tentar descobrir por conta própria lendo, por ensaio e erro. Quanto à fórmula ela já era vista quando alguém entrava em uma loja de discos. Lá se viam as categorias que diferenciavam os gêneros, as formas. E era preciso ir ao pop, ao latino, ao jazz, ao tango, ao folclore, o que quer que fosse… Há uma certa tendência de colocar as coisas em caixa, tem a ver com o impulso de compreensão. Essas formas e caixas se tornaram ainda mais esquemáticas, menores, e há muito mais quantidades de caixinhas. E ocorre também – pela questão do imediatismo e da postergação – uma tentativa de anular a frustração, diminuindo o caminho entre o desejo e a realização. Bom, a tentação da fórmula é muito grande. Com efeito, a fórmula não é necessariamente algo que se deve evitar. Se alguém a usa, tem que usá-la de forma inteligente. Pode-se usar a fórmula para recriar a fórmula, para renová-la. A fórmula per se não é a inimiga. O problema é identificar-se com a fórmula. Isso se vê claramente nas dezenas de reproduções de vídeos de reels do Instagram ou canções iguais de Tik Tok, onde simplesmente as pessoas repetem, repetem e repetem o mesmo passo de dança, idêntico, com a mesma música. Se não for a mesma é, praticamente, igual a outra música seja pelo fraseado, pela estrutura harmônica e padrões rítmicos. A questão é a presença dessa fórmula na cultura de likes, com a geração de dopamina correspondente. Bom, isso vai cultivando e acelerando nossa devoção pelo sentido de pertença; fazendo com que cada vez mais estejamos cativos do gostar dos outros. E, assim, ficamos mais presos às fórmulas. É interessante aprender o que a fórmula representa para nós. Inclusive para decidir se é para a evitar a fórmula ou criar nossas próprias fórmulas. Nesse processo descobrimos algo de mágico, de profundamente espiritual.


CV – Você é psicólogo de formação. Como esse campo afetou ou afeta a sua música?


DN – Bem, a formação como psicólogo foi muito útil em minha percepção do criativo, do artístico, porque, para começar, me deu um ponto de vista. Melhor dizendo, me ajudou a construir um ponto de vista. Um lugar onde vejo o universo e onde vejo o homem no universo. Me permitiu uma perspectiva antropológica. Isso no lado pessoal, no que se refere a minha própria criação, em como vejo a arte. Eu tenho uma percepção do universo em que além da pessoa inteira Dany, o psicoterapeuta teve uma formação e esse formação faz parte do meu olhar, da minha forma de ver as coisas que têm a ver com a arte. Em particular, minha formação em análise junguiana, também minha formação freudiana, na psicoterapia sistêmica (a teoria geral dos sistemas, as teorias da comunicação etc.). Terminei me dando conta de que me davam uma perspectiva interessante a respeito de como funcionava a criação como um todo. E porquê ocorriam determinadas coisas ao criar e porquê a gente se bloqueia em alguns momentos. E porquê, às vezes, me repetia. E, porquê, às vezes, inovava. Por que as vezes podia interagir com outros e por que as vezes não? Como tornar a dança da criação mais fluida através dessa percepção dos processos. A psicologia me facilitou nisso. Poder entender que a propri a criação é parte de um funcionamento da psique, é parte do funcionamento são da psique, que tem certas regularidades. Além do que cada um de nós se mostra ou se apresenta, de forma única. Ao mesmo tempo, têm coisas que são semelhantes para todos nós. Passam pelos mesmos caminhos, têm fontes semelhantes, e resultam em problemas semelhantes. Então, a psicologia me deu ferramentas para fazer meu mapa a esse respeito, justamente, para ter uma visão antropológica do criativo.


CV – Os tempos de pandemia desafiam a resiliência de todes e, para os artistas, não é diferente. Como você tem vivido esse tempo sinistro de pandemia? Seria um tempo de incubação ou de criação?


DL – A pandemia pode estar sendo vivida por diferentes pessoas criativas, artistas, ou criadores em geral de muitas maneiras, tendo em conta seu contexto vital, familiar e sua estrutura psicológica. Concretamente, creio que o tempo em suspenso foi uma das coisas que a pandemia gerou para muitas pessoas. A suspensão do tempo poderia até ser uma oportunidade, exatamente para tomar um tempo, respirar, se introverter… E, então, nos processos de introversão respirar a própria angústia ou respirar os próprios prazeres; saborear essas coisas. E, inclusive, quase como em um processo meditativo, se permitir ser criativo. Ou também pode ocorrer, como sugere a pergunta, que se possa estar cultivando a antena y la cantera2… Permitindo que ocorram as coisas que acontecem na parte da incubação, ou seja, a formação do material, da matéria prima que vai terminar sendo matéria criativa. No meu caso, creio que há partes dos três processos. Vivi momentos de criação, de muita incubação, de juntar pedaços, de ir construindo visões e também vivi momentos em que me dediquei a fazer, a concluir coisas que havia começado a criar. Porque o criativo não tem somente a ver com o momento de incubação ou momento de aparição, senão que tem a ver muito com o momento da conclusão do que se começou. Polir, terminar um trabalho que talvez fique no território consciente, ainda que sempre há um ir e vir com o inconsciente, mesmo quando se está nessa etapa do polimento. No meu caso dediquei muito tempo a essa etapa e tempo também a etapa de incubação e retomada de materiais – escritura de textos e pequenos fragmentos. Criei durante a pandemia, comecei a fechar um disco em português – Limbo – e avancei em dois outros. Um, novamente, em inglês – Driving away from limbo – e outro em espanhol – Un elefante en el jardin de petúnias. Na verdade, foram tarefas que têm muito a ver com tentar fechar gestalts, resolver partes de músicas que não estavam prontas, decidir arranjos. Coisas que já estavam começadas, mas que necessitavam de um esforço criativo a mais para resolvê-las. Para terminar de fechar os círculos, o que pode ser uma tarefa muito entediante e difícil, justamente, por requerer muita força de vontade. E com o tempo que parece “livre” na pandemia, talvez, essa detenção de tempo ajude. Como se a gente fosse um super-herói com o poder de deter o tempo e aproveitar para resolver e desatar alguns nós, com essa detenção do tempo, com essa suspensão.



Notas

1session player: Músico requisitado para gravações e shows.

2antena y la cantera: Antena e garimpo. Imagem que alude a busca de riquezas fora e dentro.

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