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  • Priscilla Machado de Souza

Entrevista com o psicanalista Vitor Hugo Triska

Priscilla Machado de Souza



Priscilla: Vivemos tempos em que sentimos na pele o dito de Lacan “a verdade tem estrutura de ficção”. Diante disso, dizer que estamos vivendo tempos distópicos já quase beira ao lugar comum. Neste cenário, como você avalia (ou define) a presença da produção do seriado Black Mirror na cultura? Seria uma antecipação? Ou uma leitura superlativa do que já vivemos?


Vitor: Ao contrário de outras ficções científicas que propõem tecnologias que fazem imaginar realidades diferentes da nossa, parece-me que, de modo geral, Black Mirror se baseia em nossos meios tecnológicos e projetos científicos atuais e projeta as consequências de seu desenvolvimento em um futuro que nos parece possível. Nesse sentido, a série tem vários episódios que causam efeitos desagradáveis em alguns telespectadores, pois, exacerbando o funcionamento de certos dispositivos que já existem, aponta para verdades de nossa contemporaneidade. Não diria, porém, que funciona como uma espécie de vaticínio preciso – afinal, ainda não se pode prever ou viajar ao futuro… –, tampouco como uma ficção que nos causa um certo arejo mostrando que outro mundo é possível, mas sim que tem um efeito saturante ao devolver uma imagem ampliada de pedaços de um mundo onde já vivemos e que são um tanto insuportáveis. Sublinho, porém, que a série é heterogênea e que seus episódios são crônicas mais ou menos independentes, de modo que sua qualidade de ficção pode ser considerada de diferentes formas.


Priscilla: Proliferação de satélites, tecnologia 5G e chipagem de humanos são assuntos polêmicos que parecem impor um novo sentido à noção do panóptico trabalhada por Foucault. Em sua opinião, o que resta à psicanálise como possibilidade de resguardo da subjetividade e da singularidade em um contexto como este?


Vitor: Primeiramente, considero problemático atribuir algo como uma função social específica à psicanálise; e digo problemático no sentido de que é um conjunto de problemas que estão aí em questão e cujos desdobramentos não são óbvios. Dito isso, não creio que a psicanálise deva atribuir a ela mesma uma missão de resistência romântica, como refúgio de um suposto humano que está sendo progressivamente mecanizado, cuja subjetividade está sendo escamoteada etc. Isso sim, a meu ver, seria uma previsão, talvez até um diagnóstico, muito apressado de nossos tempos que pode facilmente produzir uma visão nostálgica e idealizada de um passado que foi supostamente melhor e até mais propenso à prática da psicanálise. Por outro lado, seria ingenuidade – e talvez até omissão – não pensarmos nos efeitos da tecnologia e do “progresso” no nosso mundo. Ora, Freud se ocupou bastante disso e creio nós também devemos nos ocupar, mas guardando a complexidade das questões, não produzindo conclusões apressadas acerca de nossa cultura atual. Tentando, então responder: acho que cabe à psicanálise pensar criticamente sobre e com o seu próprio tempo, resistindo a tentações diagnósticas maiores.


Priscilla: Um psicanalista argentino Osvaldo Couso (recentemente falecido) desenvolveu há alguns anos a tese de que o amor, o desejo e o gozo estariam enlaçados borromeanamente nas neuroses. Hoje seriam neurose e amor termos anacrônicos na psicanálise? Como a “algoritimização do amor” incidiria em uma nova economia afetiva? Há ressonâncias na sua clínica?


Vitor: Anacrônico. Penso ser produtivo aproveitarmos os diferentes sentidos desse termo. Por um lado, anacrônico é o que resiste ou é imune ao tempo, que não sofre seus efeitos, mas, mais informalmente, usamos para adjetivar negativamente algo que está pouco atualizado, já fora de contexto, defasado. Neurose e amor seriam anacrônicos (em ambos sentidos) como fatos culturais ou como conceitos psicanalíticos? Entendo que esses últimos precisam ser instáveis, transformáveis, caso contrário se tornam defasados e aí se corre o risco de atribuir à cultura um déficit que é da teoria. A psicanálise não pode ser anacrônica e nem querer que seus objetos de interesse sejam também atemporais, constantes, universais. Então, isso que é digitalmente apreendido e usado para calcular a compatibilidade entre duas pessoas suscita que tipo de enlace? Essa aproximação entre pessoas mediada por algoritmos produz uma nova forma de amor? Degradação ou simples transformação do que costumamos entender por amor? Sim, são elementos que se acompanha com frequência na clínica a partir de casos de pessoas que utilizam esse tipo de serviço em aplicativos e sites. Além de várias perguntas, sobre isso só posso dizer que tenho uma hipótese incipiente: parece se esperar que a identificação (mesmos gostos, hábitos de consumo e semelhanças no geral) funcione como uma espécie de compatibilidade que garanta o amor.


Priscilla: Em seu artigo publicado originalmente pelo Correio da APPOA (repostado pelo site da Com Verso) – Por que não viver em San Junipero? – você articula o episódio nomeado com a noção freudiana do mal-estar, esta como ligada indissociavelmente ao corpo. Recentemente, o exercício clínico à distância fez com que este debate surgisse em alguns círculos psicanalíticos. Quê limites podem haver a uma psicanálise que fantasia com a ausência do corpo?


Vitor: Eu diria que fantasia da ausência de corpo, ao menos biológico, é, atualmente, um projeto científico. Os uploads de pessoas para ambientes virtuais, coisa que aparece em várias ficções, inclusive no Black Mirror, já é um objetivo explícito de muitas empresas. Imagino que o que entendemos por humano e o corpo sofreria uma profunda modificação, assim como aconteceu com inteligência quando se passou a concebê-la como um atributo possível de computadores, por exemplo. De fato, Freud fala da força da natureza e da finitude de nosso corpo como fontes de sofrimento inescapáveis. Ainda seriam se esse projeto de “dispensa” do corpo biológico fosse realizado? No momento, isso diz dos ideais que constituem nosso pathos e cabe a nós pensar em que medida isso nos afeta, afinal, pelo menos por enquanto, esses projetos se parecerem bastante com fantasias… Sobre os atendimentos à distância: ora, a imagem e a voz capturadas pelas câmeras, enviadas via internet e reproduzidas em nossas telas e fones de ouvido, por acaso, não provêm de corpos vivos? Como canta Gilberto Gil, “o cérebro eletrônico faz tudo, mas ele é mudo”!

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