Central do Brasil: Um operador clínico para a psicanálise?
- Victória Kniest

- 17 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Victória Kniest

Tomar a arte como um operador clínico rememora os textos de Freud que são articulados com a literatura para extrair algo elementar da teoria psicanalítica. Rapidamente penso no conto O homem da Areia de E.T.A. Hoffman (1816/2019) para falar sobre o Infamiliar (1919/2019) e no livro Memórias de um doente dos nervos de D. P. Schreber (1903) para abordar elementos do relato de uma crise psicótica para pensar nas estruturas clínicas (1911)1.
1. Freud, 1911/2010.
Tomar a arte enquanto um operador clínico não significa que iremos extrair necessariamente um exemplo para ilustrar algo da teoria, afinal, a psicanálise não se trata de uma aplicação. Não tomamos a arte tampouco para fazer de seus personagens, na literatura ou no cinema, por exemplo, pacientes a serem analisados e diagnosticados (é sempre importante lembrar de um conceito fundamental que é a noção de transferência). Quando fazemos interpretações assim, corremos o risco de mais lançarmos nossas questões que aparecem nos personagens e tramas do que outra coisa.
Eis que tomar um objeto artístico enquanto um operador clínico diz de algo que existe ali e que lê a psicanálise. Subverte-se a lógica: não somos nós a analisarmos os personagens, mas a algo na trama e na arte que nos analisa.
Faço essa introdução para dizer que o filme Central do Brasil2 pode ser lido enquanto um operador clínico, justamente pela relação entre Josué e Dora. Há algo dessa relação que lê a psicanálise exatamente sobre as voltas do sujeito com seu significante primordial no discurso (Lacan, 1969-1970/1992), pois Josué, nesse percurso, empresta o modo de fazer com o seu significante primário e provoca Dora, a convoca.
2 Salles Júnior, 1998.

Fiquei pensando nisso quando um amigo me perguntou sobre do que se tratava o filme. O filme trata sobre a busca do pai: Josué e Dora, cada um com o “pai” enquanto S1 em diferentes posições discursivas. Vemos no filme que ao longo do caminho Dora é indagada sobre a relação que tem com Josué… O que eles são? Qual o motivo que ela tem para percorrer com ele do sudeste ao nordeste? Num rápido instante, podemos pensar na culpa: ela não enviou a carta da mãe de Josué ao seu pai, vendeu-o para um esquema estranho para comprar uma televisão, tentou abandoná-lo no ônibus. Mas logo observamos que Dora também percorre o road movie buscando o encontro de um pai para si. "Um bêbado", ela prepara o menino enquanto bebe uma garrafa alcóolica. Ou seja, antecipa algo que ela já sabe sobre todo pai. Mesmo assim, ela o acompanha. Insiste, desiste, insiste.

O menino pede duas vezes, ao longo do caminho, para se arrumar. Cuidar da roupa, do cabelo. Não quer parecer sujo, desleixado, aos olhos do pai. E ao longo do filme ela também segue os passos do menino. Troca de blusa, coloca um batom. A fantasia de um pai surge no encontro com o Cesar, um caminhoneiro que aparece no meio do caminho. Seria um pai possível para o menino? Um encontro possível com o amor? Mas ela insiste, "bebe". Oferece um copo de cerveja para aquele que diz "não bebo" e que ao beber, também vai embora, abandona.
É interessante como essa busca do pai faz lembrar de uma noção importante - e um tanto polêmica - para psicanálise lacaniana que é o conceito de nome-do-pai. O "nome-do-pai" é essa primeira expressão que abre a série de orações e situa a ordem de um significante primário na ordenação do sujeito. Em psicanálise, observamos que o nome-do-pai é uma operação simbólica que permite o sujeito do inconsciente localizar uma falta na relação com o Outro e como marca dessa operação resta o significante primário. Nesse sentido, o conceito de nome-do-pai não aborda a figura do pai, tampouco a figura de um homem. Entretanto, no filme, observamos que a busca pelo objeto é o “pai” enquanto significante primário. Josué, diante de sua posição discursiva, cita “pai” enquanto S1 que está no lugar do Outro no discurso da histérica, pelo qual ele pode buscar e insistir em estabelecer relação. Dora, localiza “pai” enquanto “S1” no lugar do Agente no discurso do mestre, pelo qual esse que bebe, a abandona e não a reconhece faz série para todos os pais.

Esse significante primordial no lugar do Outro, no discurso da histeria (ou da histérica), pode ser um modo de buscar um outro saber… instaurar um circuito de desejo.

Outro modo de dizer, o significante que ocupa o lugar no matema da histeria é uma aposta sobre o saber da divisão do sujeito: lá onde não sou, isso advém. Isso, inconsciente, inscrito nos significantes, freudianamente chamadas de cadeias representativas. No filme, observamos que o desejo do menino Josué de buscar o pai é "emprestado" para Dora e faz efeitos que ao longo da jornada permitem a ela esses ensaios com as cadeias representativas.
O pai "bêbado" é para ela o ordenador dos significantes que comanda a série da relação com o Outro e que, nos efeitos da relação com Josué, há algo que ensaia e provoca mudanças de posições. Questões que observamos muito na clínica quando nos deparamos nesses ensaios discursivos entre discurso do mestre e discurso da histérica. É só diante da associação livre, no discurso da histérica, que um outro saber pode advir. O que nos interessa no filme é como o personagem de Josué entra na cena como um operador clínico do par analítico. O significante primordial de Josué opera em Dora a fazer essa passagem…
De pai bêbado que produz séries significantes só a partir dessa matriz para o significante primordial no lugar do outro, pelo qual pode ensaiar a produção de outras séries. Outros pais? Dora está deitada com a cabeça no colo de Josué no pôster do filme.

O filme é muito bonito, além das atuações grandiosas dos dois, da trilha sonora e das belas paisagens do sertão, ele nos convoca a pensar nessas passagens necessárias de uma trajetória… em análise. Josué empresta à Dora algo primordial e ao longo do filme observamos que o desejo moral de levá-lo vai produzindo nela Outra coisa no encontro com outro.
Referências
Central do Brasil. Direção: Walter Salles Júnior. Produção Martire de Clermont-Tonnerre e Arthur Cohn. Le studio Canal; Riofilme; MACT Productions, 1998.
Freud, S. (1919) O infamiliar. In: Freud, S. (1856-1939) O infamiliar e outros escritos. Autêntica Editora, 2019.
Freud, S. (1911) Notas psicanalíticas sobre um relato de um caso de paranóia. In: Freud, S. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia : (“O caso Schreber”) : artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). Companhia das Letras, 2010.
Hoffman, E. T. A. (1815) O homem da areia. In: Freud, S. (1856 – 1939) O infamiliar e outros escritos. Autêntica Editora, 2019.
Lacan, J. (1969-1970) O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Zahar, 1992.
Schreber, D. P. (1903) Memórias de um doente de nervos. Todavia, 2021.




Comentários